Amizade é uma coisa complexa. Muito mais do que o amor romântico ou a paixão arrebatadora, pois esses tem regras tão mais discutidas e claras. Já quando estamos "entre amigos" esse jogo fica bem mais nebuloso, é um terreno onde tudo é permitido e pode ser superado em prol da construção dessa amizade. Acho que o principal motivo disso é que as coisas ruins entre amigos, as brigas, os rompimentos, tudo isso é muito mais aceitável e serve inclusive para reforçar a amizade - sem aquele cunho brega que as retomadas tem em um relacionamento romântico. As grandes brigas e os tempos separados fazem parte dos grandes amigos.

O problema é que, com isso, começamos a perdoar tudo, a relevar tudo, a deixar tudo passar, acreditar que a amizade é verdadeira e vence tudo e... e quando vamos nos dar conta tanto tempo foi investido e desperdiçado em um relacionamento que, como qualquer outro, estava fadado ao fracasso.

Acho sim que ser amigo é acima de tudo aceitar o outro a amá-lo exatamente como ele é, mesmo que não suporte algum de seus defeitos. Mas a balança tem que sair positiva. Tem que ter algo em troca. E às vezes a gente não vê que esse algo em troca não está vindo. Nunca vem. Nunca.

Nesses momentos o que resta é cortar e aceitar que nunca foi amizade, apenas um coleguismo fugaz de repartição.


Não sei se essa dor vai se curar. Não sei se vou voltar ao que era antes, mas hoje a única resposta é não. Desde então a vida está úmida. Desde então o peso da culpa de tantas coisas ressurgiu e somente vejo a roda do karma virando em minha direção. Eu e minhas crenças. Eu e tudo que veio antes, que veio sem querer, que foi basicamente um grito desesperado de alguém que não suportava mais. Tantos foram os momentos justificados e gerados por situações que, feliz ou infelizmente, o destino resolveu por si só (com uma pequena ajuda).

Por que tudo se repete? Por que as esperanças criadas novamente são pisoteadas? Por que permitir que eu me libertasse para me condenar novamente ao cárcere?

Teve uma jogada que não previ. Ou previ, mas ignorei. Acreditei que não iria mais acontecer.

Fechar os olhos para continuar. Calar o choro. Amortecer a dor.

Repetição.

Vida.


Toda semana eu nado.
Nado em direção à superfície, com toda a força que resta nos músculos, arfando em desespero.
A pressão contrária é forte e opressora. Em todos esses dias penso em finalmente relaxar, me deixar levar pela correnteza, imergindo mais e afundando completamente nesse mundo de vazio e escuridão.


O tempo passa rápido. E então vejo que ninguém ganha ou perde, apenas mudamos de posições, trocamos os caminhos, invertemos os papéis. Sempre fica uma angústia guardada do que podia ser diferente, claro. Sempre fica uma dor latente das amizades perdidas e dos amores incompletos, mas o que podemos fazer depois que tudo se torna passado?

A própria vontade do não-gostar acaba ficando pequena e simples. Não vale a pena. Não vale a pena pensar. Penar. Por mais que exista ainda um certo rancor, ou uma certa mágoa - uma certa falta de vontade - nada vale mais a pena, pois os desafios são outros e as questões do presente ainda mais doloridas.

Estou à disposição do destino.


Se aprendi algo no último ano, foi a nunca, jamais, confiar. Nunca acreditar nas palavras, nas promessas, na esperança de que alguém de fato se importa.

De verdade: todos estão cagando.

Quando mais precisar, você estará sozinho, e todas as máscaras simplesmente caem, sem vergonha, sem dúvida, sem reflexão. Pois não é por maldade, e sim porque somos assim, humanos, falsos e traiçoeiros.


As pessoas me ajudavam a respirar por aqui. Com suas piadas, momentos tolos, parceria. No fim, sempre busquei por algo que nunca pude ter e, talvez por isso, eu me esforce tanto em dar. Acredito, infelizmente, que o meu máximo não seja o que há de melhor, ou algo tão valioso assim per se. Se tem algum valor é apenas pela amizade, por um companherismo idealizado e muitas vezes inexistente. Pensar nisso todos os dias é dolorido, contudo, e prefiro me ausentar. Ultimamente até em pessoa tenho me ausentado, e me reprimo por isso, mas é de novo aquela sensação de ter sido consumida completamente; estou vazia e sem sentido, e ainda assim obrigada a dar.

Acho que todos acabam um dia estando nesse local e momento que estou, e lidam de forma diferente. Alguns amam tanto que isso preenche as lacunas. Outros dão mentiras e falsas palavras apenas para acobertar seus vazios. Alguns cessam de dar e desistem, indo consumir mais ou então indo para lugares em que lhes pedirão outras coisas, pensamentos mais simples, ações mais rudimentares. É um jeito. Nenhum é o meu jeito e não sei onde encontrá-lo.

No fim creio que tudo gira em torno da solidão da vida adulta. Aquele momento que - enfim! - percebe-se só, único e isolado ser em uma selva de pessoas desconectadas. Demora um tempo para os laços irem se quebrando, mas eles vão e um belo dia nos encontramos nesse vasto deserto que é a vida. Nesse momento nada acalenta mais, nada preenche, nada mais completa o nada. Luto, e tento me agarrar a sentimentos que basicamente não existem, mas são forjados por mim mesma para fingir que ainda existe solução para esse estar só. Refletindo assim, nesse momento de distanciamento, sei que são apenas mentiras, contos de fada que inventamos para usar de muletas e continuar caminhando, ainda que cambaleantes. Que outra coisa nos impede de cair? Que outros artifícios ou que outras verdades que ainda não descobri? Existem? São essas questões que me acordam e que me fazem dormir todos os dias.

O aprender a ser só dói.


São dias como esse que dão vontade de repensar tudo. Não resisto, me deixo levar rapidamente pela onda do "onde estou, pra onde vou?". Cresce a angústia. O tempo continua firme, contínuo e entediante, massacrando os dias que vão a passos de bêbado. Me dá vontade de beber também.

Por quanto tempo é possível se enganar? Acho que estou batendo novos recordes. Logo (ah, relatividade...) virá o ponto onde não tem mais volta. Ainda estaremos mais distantes nesse dia, compensando com proximidades banais (mas adoráveis). Pois alguém tem que sair de seu compasso, alguém tem que correr nessa música ou ralentar a vida até ser esmagado pelo seu peso e morrer asfixiada e triste e sozinha.

E errar o ritmo me dói tanto...


Ter calma é difícil em tempos de ansiedade. A vontade de que tudo se resolva logo é grande. Vontade de definições e verdades que levam a mais verdades e definições.
Tento fazer esse exercício de calma as vezes. Nada vai mudar. Nada acontece. Sentar e respirar o mesmo ar, várias vezes, e sentir o tempo quase parado, flutuando a minha volta.
Calma.


A vida dos que querem agradar é muito pesada. Passar os dias se dando, se doando, se entregando e receber tão pouco. Às vezes menos que o mínimo. Ficar vazia, sem esperança, sem sentimento para poder continuar dando. Sofrer por dar demais e por não poder dar mais nada. Só sofrer, sem lágrimas, sem energia para brigar, viver sem nada. Esse vazio pantanoso, que drena até o ódio, come tudo que restou, mesmo que o restante seja menor que o vazio.


O fim de uma fase. Não como esperei inicialmente, contudo. Foi preciso bastante reflexão e coragem para admitir o fracasso em algo que apostei com tanta intensidade, mas no fim não houve outro caminho. Atravessei esse caminho e provei na pele que meus preconceitos não eram coisas da minha cabeça, que são sim a realidade.

Há uma pressão pelos títulos, claro. Muito grande até, maior do que deveria, mas de que adianta um título vazio de significado? Pra mim então, estudante e produtora (ou manipuladora) dos significados? Enfim. A questão é que não vou defender e me impor uma coisa que pra mim nada diz e que se provou um caminho errado. Pode ser que essa escolha vá me prejudicar no futuro. Pode ser que eu colha ainda muitos frutos podres por essa decisão, mas não quero me conformar. Em dias que temos que nos conformar com tudo, trabalho, família, amigos, amores... pelo menos com o que depende unicamente de mim não vou aceitar o errado - o que não concordo.

O que vem de agora em diante não sei. Sei apenas que o que foi ontem não é mais.


Foram tantas coisas ruins acontecendo...
tantas as dores - físicas, emocionais -
as desilusões,
falta de confiança,
gritos.
abandono.

Não pude estar tão presente como queria. Nem tão calma para desconsiderar as palavras amargas que ouvi. No fim só queria agradar a algumas pessoas, seja pela dedicação que empenharam, seja pelo momento péssimo que estavam passando... ou apenas porque queria criar alguns sorrisos. Para os outros e para mim.

Às vezes tudo o que podemos fazer é relevar. Priorizar. Dar o peso certo a cada coisa que fazemos.

Uma vez, ainda bem no começo do estudo do violino, toquei com um grupo de amigos. Não porque eu tocava bem, ou porque me achava preparada, mas porque existem pessoas que apreciam partilhar essas etapas do estudo e do crescimento. E foi divertido nossa jam, rimos, fizemos piada dos vídeos depois, fazemos até hoje.
Também com o tango foi assim. Tango 1 e eu e o Ricardo já fazíamos videozinhos de tango no youtube, milongas em new york, festinhas em casa com dança pros amigos. Os elogios são naturais, não porque visam exaltar uma técnica ainda incipiente, mas sim porque são feitos em homenagem ao esforço e com a intenção de não minar a vontade de aprender e crescer mais com o tempo.

Desistir é fácil. Persistir, apesar das dores, é para mim quase impossível. Só faço porque de vez em quando alguns sorrisos vem me animar. Me dou então o luxo de saboreá-los ao invés de questioná-los.

Já existem tantas questões em mim.
Tantas lacunas que não consigo preencher. Mesmo num post bobo de blog ficam visíveis.

Perdão.


Olho no relógio buscando uma desculpa
Um motivo qualquer
São apenas onze horas. Onze. Manhã.
Não tem como amenizar esse tipo de coisa, ou fugir. É uma perseguição.
Implacável e triste.
Às vezes quero que o tempo passe, outras vezes que ele congele.
A única coisa que é certa nessa história é que meus desejos são inúteis.


Tanta coisa passa na minha cabeça agora que é até difícil organizar os pensamentos. Nos últimos dias aconteceram alguns eventos que me levaram a pensar onde e como eu estava nesse mesmo momento o ano passado...

Percebi que nada mudou.

Quer dizer, muita coisa rodou, mudou, se transformou, mas no final mesmo tudo voltou às suas posições iniciais.

O que parecia curado, sangra. Me pergunto como pude me enganar, depois lembro como é boa a sensação de ilusão. A sensação de que as coisas imutáveis podem sim mudar. Que os problemas insolúveis quem sabe podem se resolver.

Tudo besteira.

E nessa, assim como em várias outras situações da minha vida, vejo que caráter não se muda. Uma ver deturpado, uma vez apodrecido e ruim... assim será para sempre.

Com os primeiros sinais, as primeiras mentiras, ainda há aquela tentativa boba de desviar o olhar: "ah, mente porque se envergonha". Pouco tempo para viver nessa ilusão. Pouco tempo para ver que a vergonha de fato não existe, pouco tempo para ver que a luta é mais uma vez perdida.

Aí vem a hipocrisia. Vem o cinismo. E a obrigação de conviver com tudo aquilo que desprezo com todas as minhas forças. A farsa, os olhares trocados em silêncio, a dor partilhada.
Pequenos gestos são notados, a audição fica aguçada, procurando o próximo sinal de piora, o próximo passo para um caminho que além de não ter volta, apenas se torna mais triste e infeliz.

Ainda assim o que mais me incomoda é a violência das atitudes. Violência que não se pode combater, que não há denúncia possível, que sequer se pode comentar. A violência de esfregar na cara de todos o quanto somos inúteis, fracos, insignificantes, marcados e - principalmente - impotentes.

Creio que certas coisas não podem ser contadas, ou traduzidas, ou divididas com alguém que não as vive. Não é uma questão de se endurecer, ou se proteger, mas apenas que não é possível alcançar o entendimento dessas situações sem que você tenha as marcas latejando no próprio corpo e alma.

Por isso que eu prefiro conversar com o vazio.


O meu mundo era muito grande e dava espaço a todos que queriam participar.
A voz das conversas era alta, o ruido sempre presente, as cores brilhantes.
Eu nunca excluí ninguém, mas também nunca prendi: eram livres para entrar ou sair.
Só que nessa bagunça eu não consguia mais me encontrar. Entre livros, móveis e poeira: onde eu estava?
Então deixei tudo encolher, esvaziar como um balão de gás que está cansado de sempre subir.
Deixei as vozes calarem. As conversas se restringirem apenas às necessárias.
As cores diminuiram, o silêncio cresceu como uma onda de calor no verão.
Aos poucos me vi envolta por fragmentos de uma era anterior, e esses fragmentos que não se dissolveram com o tempo encontraram espaço para crescer e se tornarem novas formas. Formas plenas, conscientes, sólidas.
O mundo diminuiu um bocado, é verdade. Mas todo aquele sobrepeso que eu carregava agora se foi.
Me sinto leve.


O tempo que passa
A força se esgota
A felicidade estremece
Uma gota no oceano
A sorte
A falta
De vontade
De desejo
Daquilo tudo que não faz falta
Saudade
Persistência, paciência
Ânimo ausente
Presenças ausentes
Pessoas
Vazio
Uma gota no oceano
O azar
O amor
Preencher, desistir
Impotência no pensar
Raciocínio
Mais ausências, angústias
Mais vazios, mais vida
Passado
Tremores noturnos
Sonhos perdidos
Verdades transformadas
E mentiras
Uma gota no oceano
Acaso.


Carta a um amor imaginário


Ei, você, que reside em seu santuário inatingível,

Preciso que venha aqui. Quando a realidade é áspera e me fere é a você que peço ajuda, em seus braços que me aninho e peço calada por socorro.
O bom da nossa comunicação é que não precisa ser dita,
não fere orgulhos.
Se um dia o fiz tangente, perdi a receita. Hoje está cada vez mais etéreo.
Ainda assim aguenta minhas lágrimas sofridas e meus gritos solitários.
Às vezes sinto sua presença na cama, sorrindo ao meu lado e dentro de mim,
daquele jeito que sim, só você sabe fazer. O jeito que eu desejei e inventei para sua face.
A língua que ensinei para o seu corpo.
Em outros dias tenho certeza que o perdi, embora esteja em mim e me pertença.
Gosto de você pela sua perfeição, criado à sombra e imagem da minha própria presunção.
Não tente escapar das minhas demandas, por mais impossíveis que elas pareçam: você é minha cria.
Talvez por isso o amei quando você encarnou para me satisfazer, tomando corpo, alma e sangue.
Criando vínculos eternos graças a essa transgressão da linha do que é real. Me fazendo também imaginária.
Agora que estou novamente abandonada, sinto saudades e lamento sua partida, embora ainda tente o alcançar aí dentro de mim.


Acabou abril. Acabou triste e solitário como começou e acredito que poucas vezes me senti tão derrotada pelos acontecimentos. Abril me trouxe muitas lembranças e desejos, mas saio do mês levando apenas destroços do que um dia existiu.
Abril me mostrou o quanto as coisas são efêmeras e como os relacionamentos se desfazem e terminam em brumas. Me mostrou as lutas em vão que participei em outros tempos. Me mostrou que amizades se provam com o tempo.

De uma certa forma já sabia.

O que acontece é que abril me tirou o benefício da dúvida e o resto de esperança. Acontece que me presenteou no lugar de flores com um espinheiro morto.


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